(LF-2015) Poesia e Existência

terça-feira, 16 de junho de 2015



 

O poeta sem cultura

Por Adeir Ferreira




O Poeta sem Cultura é uma obra de versos e rimas, escrita por Amantino Camilo Alves (Nelpa, 2013). A expressão “sem cultura” se refere ao fato de o autor possuir baixa escolaridade. Diferentemente da tradição nordestina e também nortista – nas quais, sem muito esforço encontramos um rimador, um repentista, um contador de causos, um trovador, um poeta popular –, encontramos em Minas Gerais um poeta popular, Amantino.
Eu não possuo habilitação acadêmico-literária para classificar nem mesmo um arranjo de versos septilhados, como é a preferência do Amantino. Como mero filósofo que sou não reúno competências específicas para apreciar formalmente um texto em seu rigor léxico-gramatical, nem histórico, muito menos literário, senão em sua identidade existencial, política, cultural. Mesmo assim o faço sob um reconhecido grau de superficialidade. Superficialidade no sentido amplo da palavra, a fim de enfatizar a ousadia em cientificizar algo. Se é que nos é preciso. Aliás, nesse momento eu questiono: não é exatamente dessas estruturas formalistas que O Poeta sem Cultura bate em fuga?
Certamente que sim. O Poeta sem Cultura foge, mas, sem o reconhecimento do peso formalístico que recai sobre ele. Evidentemente, o fato de a terminologia poética se apresentar como sem cultura diz respeito à formação escolar do poeta. Talvez eu tenha poucas rugas para dizer com autoridade que a experiência sempre nos mostra que o conhecedor é muito mais temeroso do que o ignorante. Em razoável espaço de tempo, fui testemunha ocular de sujeitos que arrogavam para si envergadura suficiente para levar a cabo uma empreita ousada. Só não o fizeram por temer as consequências, obstáculos ou adversidades que lhes eram conhecidas. Surpreendi-me também com tantos incultos que em sua ignorância se tornaram grandes gênios. No fundo, por desconhecer a existência de obstáculos.
Testemunhar a morte de um poeta é uma das coisas mais comuns de se ver. Mas testemunhar o nascimento de um poeta, isso é um fenômeno raríssimo. Não me refiro precisamente à morte de ícones históricos ou de ícones do mercado literário. Falo daqueles poetas de engajamento existencial, cujas palavras foram escritas com o próprio sangue, parafraseando o Zaratustra de Nietzsche. Falo de Pasolini, de Clarice Lispector, de Fernando Pessoa. No entanto, eu falo de Amantino não como um extemporâneo, mas como um exculturâneo.  
Quando é que surge o poeta? Amantino surgiu como poeta já em sua infância. Mas a indigência política, cultural e social do seu meio o fez ser apresentado aos seus leitores somente na sua velhice, aos 71 anos de idade. O gênio paradoxal de Amantino o fazia sempre ser uma incógnita até mesmo para seus filhos e esposa, o que dirá a sociedade. Ele não conseguia um minuto de atenção dos ouvintes e leitores para os seus textos, senão sob o manto de uma árdua insistência. Na vida de trabalho Amantino convivia com a classe operária, de baixa escolaridade. Na religião ele nunca conseguiu sua oportunidade de expressar livremente. Não foram poucas as vezes em que seus textos especiais de homenagem aos dias festivos e comemorativos arrancavam aplausos por hábito social, e construía piadas de sarcasmo por hábito espiritual. O espírito oscilante de Amantino nunca facilitou o meio termo. E socialmente, na sua cidade não havia e nem há espaços culturais, e nem bibliotecas para o endireitamente de um espírito arredio como esse.
Quando me dei por gente, na minha adolescência, vi um Amantino alcóolatra, brigão, violento, piedoso, ingênuo, pobre e compassivo. Parecia que todas as suas inquietações tornava-o cada vez mais incompreendido. Muito temido, muito amado, muito criticado. Rejeitado por todos. A caneta e os papeis velhos que pareciam ser a sua prisão se transformaram em seus instrumentos de libertação. Parecia que a cada texto que Amantino escrevia mais ele se encontrava. Embora não houvesse ainda leitores dos seus garranchos. Mas, ele escrevia para si mesmo, e seus leitores imaginários aprovavam suas expressões.
Lembro-me que, quando ele estava na casa dos 50 anos, já se notava em seu semblante um ar de auto compreensão. O alcoolismo já havia sido dominado. O diálogo já havia sido reestabelecido com algumas almas mais pacientes. Não se pode descobrir completamente o valor de um homem quando tudo o que você sabe sobre ele é apenas efeito de lisonja ou maquiagens para a quimera egóica. Como um de seus nove filhos eu fui educado a ferro e fogo. Por inúmeras vezes Injustificadamente eu e meus irmãos fomos duramente repreendidos, castigados e reprimidos. Não há nada mais doloroso do que apanhar sem motivo ou sem razão suficiente. Às vezes o próprio choro era um motivo. Qualquer lugar era melhor do que o lar. No entanto, às duras penas pude compreender lentamente a alma de um pseudo algoz.

O que faz um poeta?
Quando se tem que explicar os possíveis sentidos numa expressão como esta, de duas uma: ou o escritor falhou em seu processo comunicativo ou sua intenção é ambígua. Quando se tem que explicar uma expressão como essa pode revelar, além das duas primitivas hipóteses, a tenra experiência no mundo da escrita e da leitura e também da cultura. Muitos leitores buscam cada vez mais textos diretos, curtos, mas com efeitos profundos. Ou seja, buscam informações. É nesse sentido cultural que a poesia em especial se tornou informação. É também nesse sentido que percebemos em sala de aula o conteúdo como informação, como já é apontado nos livros paradidáticos de filosofia. O alunado quer informações para a prova.
Tenho que abrir mão do ritualismo filosófico como cultura para dialogar com as diversas frentes. Isso não me torna mais inculto, pois consigo ainda preservar a reflexão. No entanto, me dói ver muitos saberes que se flexionam ao ponto de mostrar seus privados orifícios no intuito de serem aceitos. Esse processo-de-massificação-mercadológica arranca a alma do saber. Suprimir a alma é algo tão sutil que não permite aos espíritos comuns sentir sua ausência. Esse pacto diabólico foi apontado por Theodor Adorno em Notas de Literatura I como formalismo/academicismo/positivismo/cientificismo, no qual todos esses sufixos “ismos” substituem a alma pela estrutura bela/formal. Ele aponta o ensaio como forma de preservar a crítica. Nietzsche chama a liberdade do espírito de vida, em oposição ao espírito idealista, cientificista e racionalizado da Era Moderna. Soren Kierkegaard chama de luta existencial toda a saga interna do sujeito que tenta preservar sua ipseidade à salvo, frente ao idealismo do século XIX. Pasolini tenta manter as frações culturais da Itália intactas perante o assédio burguês da unificação do país, e do processo de globalização que já apontava suas garras na década de 70.
O que faz um poeta não é sua poesia. O que faz um poeta ser o que ele é está ancorado existencialmente em sua própria visão de mundo. O que faz o Amantino ser autêntico é sua relação profunda com a classe baixa. Baixa também em termos econômicos, culturais, políticos e sociais. O conteúdo de suas poesias, chamada por ele de “mensagens”, são histórias do seu cotidiano. Coisas que ele ouviu, testemunhou. Histórias bonitas que alguém contou pra ele. Muita gente delega ao trabalho mecânico de colocar rimas em textos o dom poético. Na verdade, não sei exatamente em que momento, mas podemos sentir de um verso a outro, de uma estrofe a outra, mais do que uma sabedoria estrutural nos escritos de Amantino. Percebe-se que há uma intencionalidade ética, espiritual e política. Agora entendi porque ele chama de mensagens os seus escritos.
O que faz um poeta? No cotidiano, a ocupação de um mensageiro não é lidar com suas mensagens, mas com a sua existência. Jogar sinuca, fazer excursões, ir á igreja, levar netos para escola, arrumar a casa, fazer almoço... Suas mensagens serão apenas espiritualização do seu ato de testemunhar. Como se vê em Kierkegaard, a luta do Cavaleiro da Fé é sempre interna, sempre sua, sempre silenciosa. É isso o que o torna incompreendido, isolado. Mas, compensatoriamente o torna autêntico. Já o Guerreiro é o tipo de escritor que precisa de público para dizer o que ele é, quem ele é, e o que ele faz. Quem define um poeta comum é o seu público. O que define um poeta existencialista é o que ele é por natureza.
Mas, falando em miúdos. Quem vai se interessar por uma obra sem expressões universais, e sem estruturas formais? Quando comentamos uma leitura que fizemos, em geral sentimos um engrandecimento, mesmo que de fachada porque a notoriedade do escritor eleva o ego do leitor: “li este mês Carlos Drumond de Andrade”. Quando lemos um texto artesanal, como o Poeta sem Cultura, encontramos a nós mesmos. Identificamos uma pessoa, uma situação, um gesto – que além das belezas das rimas –, evoca em nosso âmago uma reflexão intimista. Pois em alguns momentos somos ou encontramos um ser humano Sem Compaixão, Sem Respeito, Sem Humildade, Sem Honestidade, Sem Amor.

A obra
Em 2013 ela teve a primeira impressão com poucas tiragens. Em 2015 ela começa a ser comercializada.
Estima-se que até 2016 uma nova obra (Mensageiro do Sertão) que já está sendo concluída chegue ao público.

Aos interessados, solicitar informações e encomendas pelos contatos: 
adeir.ferreira@yahoo.com.br – adeir.ferreira@outlook.com – Editora Nelpa.




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