Como é ser negro?

sexta-feira, 20 de novembro de 2015


Por Adeir Ferreira 


Todo o esforço dos movimentos sociais da causa racial, toda a legislação produzida em prol das questões étnico-raciais, toda arte e todo texto sobre o assunto parece que - de um modo geral -, faz um trabalho interior de modo dialético, mas externamente o faz de modo dicotômico. Por isso a sensação de que ao passar para o público o conteúdo das questões raciais os pró-afrodescendência utilizam uma via inversa e unilateral em seu discurso.
O caminho interior da arte, da cultura e da vivência das questões étnico-raciais são profundamente fantásticas: uma vida no quilombo devotada à manutenção das tradições; uma vida religiosa praticada na privacidade do seio social; uma prática esportiva que vela a mística da capoeira moldam a ipseidade do eu do negro. Até mesmo o negro-de-gabinete, cujo sentimento de pertença a um grupo - extrapola a melanicidade -, se faz pelo simples sentimento de compaixão e de fraternidade. Assim, o eu do negro se sente em casa, se regozija com o outro.
Até hoje, eu só vi uma pessoa não declarada negra intuir espiritualmente essa vivencialidade interior do sentimento identitário da raça negra. Numa ocasião em que eu lecionava sociologia para uma turma de segundo ano do ensino médio no Colégio Militar de Brasília, sobre as questões raciais, um aluno falou comigo após a aula que sentia um grande pesar de não conseguir nutrir um sentimento identitário tão profundo como um negro sente por sua raça. Ou seja, no fundo, o aluno reclamava  pela inexistência da comunhão fraternal da alteridade em seu grupo racial.
A relação dicotômica dos que se autodeclaram negros para o trabalho de conscientização na abordagem da temática com o público geral é árdua. A comunicação funciona inversamente, pois o sujeito fora do círculo de entendimento não consegue acompanhar a linha de raciocínio política, racial, social, cultural, religiosa e de gênero em que o negro está inserido. Até mesmo as mentes mais libertárias das pessoas que não se autodeclaram negras, e até mesmo a mentalidade de muitos negros formalmente-instruídos não entendem os programas de cotas raciais, por exemplo. Muita gente acha que a finalidade das cotas raciais é sinônimo de fragilidade intelectual e ou econômica, e que portanto, resolvendo os problemas econômicos e educacionais não precisamos de cotas raciais.
É sabido que o critério de classificação racial no Brasil é subjetivo, uma vez que somos miscigenados, conforme Bruno Konder Comparato. A princípio, as cotas raciais têm a finalidade de imprimir no caráter do sujeito que se autodeclara negro uma via de comunhão com a sua ipseidade, com a sua identidade no sentido lato. Consequentemente, serão conflagrados os problemas periféricos que demarcam a existencialidade do negro na circunvizinhança dos demais grupos raciais. O negro é conceituado pela sociedade como pobre, marginal, farrista, analfabeto, feio, agressivo etc. Tais concepções são frutos da confinação da identidade do negro às correntes das senzalas. Correntes essas que ainda não se quebraram completamente, mas que estão apenas em processo de oxidação a conta-gotas. Por isso o racismo brasileiro é mais agudo do que em outros países, porque ele é marcado pela escravidão. Quando Makota Valdina diz que: "não sou descendente de escravos. Eu descendo de seres humanos que foram escravizados", no fundo ela reclama para a ipseidade do negro o princípio básico do homem que é a sua própria humanidade, cuja vontade alheia a transformou em mão-de-obra escrava.
Tal afirmação tem procedência segura no sentido de que o negro somente consegue a sua alforria com o empoderamento social, econômico, artístico, intelectual etc. Pois, um douto negro se equipara a um simples branco quando ascende publicamente. Por termos no Brasil o racismo de marca, marcas da escravidão, cujo sinônimo profundo é o de pobreza, miséria, vencendo tais marcas o sujeito se sente embranquecido, livre. Outro fator soma-se a esse histórica e antropologicamente, o fenômeno da miscigenação. Ser branco no Brasil é ter uma equiparação identitária com a raça branca, seja em termos de traços de pessoa da raça branca, dinheiro, fama, destaque social, status, portanto.
O racismo brasileiro é duplamente silencioso. Primeiro, por não ser declarado, pois crê-se que não exista racismo nesse país, mas apenas pobreza e analfabetismo. Segundo, por não ser declamada a humanidade do eu do negro no espaço que ainda não o acolheu e ainda não o reconheceu. O caminho mais viável para a manifestação das questões étnico-raciais não pode se reduzir apenas às denúncias, ao enfrentamento, ao diálogo, mas iniciar com a educação para as relações étnico-raciais, pois a voz unilateralista das tradicionais abordagens escapam ao entendimento racional. Parafraseando Soren Kierkegaard, longe de pensar que não se deve confrontar, mas, antes desse procedimento externo nós precisamos confrontar com a interioridade do nosso sujeito humano e defragá-lo publicamente quando for preciso.
Observo que, a obrigatoriedade das leis determinantes para o ensino de afroletramento e para a coibição e punição de crimes raciais de um modo geral acabam por tri-silenciar o sujeito errante. Por que ele tenta racionalmente se policiar em público no que tange ao emprego de terminologias politicamente corretas no tratamento social para com o negro, mas no sedimento da sua intimidade - nebulosamente -, há uma indigestão espiritualmente ética. O sujeito errante não recrimina tanto mais o negro por força de lei, mas, por exemplo, demoniza as religiosidades de matriz africana, tiraniza a estética dos cabelos crespos, não pronuncia à peito aberto o seu horror à tudo que é da identidade do negro. Por isso diz ardilosa e angelicalmente: "eu não sou racista, mas eu não gosto dessas coisas".
O fenomênico critério estético do "gosto", conforme Luc Ferry, serve como estepe para uma indecifrável postura intelectiva da contemporaneidade. O sujeito errante hosmosifica em sua subjetividade um mero capricho ajuizado no seu descompromissado parecer. Essa postura de negação é tão letal quanto a de positivação meramente no gosto: "nossa! Como isso é legal. Essa ginga, esse axé...". Pois, o sujeito errante julga não ser racista porque ele aprecia alguns elementos identitários do negro. Esse paradoxo, sobretudo em sua segunda forma é mais comum de se ver em espaços públicos, geralmente em escolas, nas quais a figura do negro na semana da consciência negra é folclorizada. É como se ser negro em espaços concedidos pelos senhores, conforme Gilberto Freyre acalmasse a selvageria dos negros. É como se essa concessão folclorista e modista congregasse diplomaticamente a paz entre brancos e negros e cumprisse o seu preceito legal de promover a igualdade racial.
Em contrapartida, a luta do negro não deve se reduzir ao papel de capitão-do-mato-da-pele-escura, cuja função é abrigar em seu sovaco o Estatuto Racial a fim de empregá-lo em situações de crimes raciais, mas sim o de demarcar existencialmente a sua luta em sua identidade e oferecer os espólios do embate ao oponente fazendo-o ver que seu erro consiste em permanecer preso à uma visão de mundo que não corresponde com a realidade. Precisamos propagar a nossa identidade de ser negro com o sentimento de compaixão para com a existencialidade do novo escravo, cuja tradicional forma de ver o negro se resume em observância de leis em folclóricos momentos fugazes somente.
Um autêntico negro transcende os elementos do estereótipo estético, legal, cultural e religioso da sua vida e fala com a sua alma até mesmo para aquele que rejeita os elementos periféricos da identidade do negro. Portanto, o que faz com que o negro seja negro não são elementos estereotipados, embora sejam caros para ele, mas sim o que eles representam, ou seja, a sua identidade. Com efeito, a própria identidade não se reduz aos elementos estereotipizantes, pois qualquer pessoa poderia se revestir de adornos afro, conservar o cabelo crespo, mas não o tornaria negro, porque o poder de tais elementos são inanímicos.
Para finalizar, tentarei traduzir esse breve ensaio com uma profunda experiência existencial. Aos 27 anos de idade, eu ingressei nas fileiras do Exército Brasileiro, no posto de oficial, com a função de lecionar filosofia na escola militar. Daí eu perguntei a mim mesmo: o que é ser militar e como é ser militar? Passadas as fases de admissão, submeti-me a uma austera robustez de espírito ao vestir a farda verde-oliva, tomado psicologicamente pelo vulgo embuste. Enquadrei-me no pelotão com mais de cem aspirantes, marchei, prestei continências, no entanto ainda não me sentia um militar de verdade. Até que, em uma ocasião o instrutor do meu pelotão nos conduziu para um grande muro da entrada do 1º Regimento de Cavalaria de Guardas e nos fez bradar em uma só voz o lema dos dragões da independência: "dragão, cumpre o teu dever, aconteça o que acontecer". Nesse momento houve em minha interioridade uma estranha comunhão existencial com a vida militar. 
Em tal experiência não somente foram respondidas as minhas indagações, como também uma profunda sensação de sentimento de pertença, de entendimento, de compreensão tomaram conta de mim. Essa experiência me proporcionou o desapego dos dilemas filosóficos e políticos tradicionalmente impetrados contra os militares. Minha vivência na caserna foi filosoficamente autêntica quanto respeitosa em relação ao espírito militar, o que não me impediu de enfrentá-lo quando necessário e de aceitá-lo quando necessário.
Como filósofo existencialista não pude deixar de inferir que a explicação mais plausível do problema reside no fato de que o tema dos problemas da interioridade e da intimidade do negro, ou seja, da identidade é que deveria ser abordada enfaticamente. Os ouvidos dos brancos não seriam confessionários dos problemas dos negros, até porque - como diz o senso comum -, "problemas só mudam de endereço", mas a disparidade dos problemas identitários étnicos raciais é que são exceções.
Se engana aquele que pensa que as vivencialidades existenciais da identidade, inclusive a racial são experiências cativas da alma intelectual. Sempre que eu me encontro com o Rui Perpétuo (presidente do Movimento Afrodescendente de Brasília-Madeb), ele me diz: "Adeir, você precisa conhecer o quilombo Mesquita, irmão". O brilho nos olhos do Rui, o amor que embala a sua prosódia traduzem o indecifrável espírito identitário da sua ipseidade, que no fundo quer dizer: "conheça a minha família, conheça o nosso povo, conheça a nossa alma".


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