A guerra do fogo: civilização e barbárie.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015




Por

Adeir Ferreira e

Gustavo de Azevedo Porto
Licenciado em História-UERJ
Especialista em Literaturas portuguesa e africana-UFRJ
Professor de História da SEDF

O fogo, que possibilitou o surgimento dos comportamentos civilizatórios, foi cultuado desde o surgimento das primeiras cidades. Muitas vezes foi relacionado à divindades como Héstia e Hefaístos (na Grécia), Vulcano (em Roma) e Xangô (na África), isso ocorreu porque as primeiras religiões utilizavam este elemento em seus rituais. Logo, o fogo do Zoroastrismo é o mesmo do Hinduísmo, do Taoísmo, do Candomblé e do Cristianismo. Em muitos períodos da História da humanidade o fogo foi compreendido como fator de purificação da alma, o que permitiu a alguns grupos religiosos acreditar que poderiam usar esse elemento contra os "impuros". Ou seja, os impuros são aqueles que não se encaixavam nos padrões de comportamento considerados como aceitáveis... nesses momentos qualquer um que desafiasse os paradigmas religiosos poderia ser colocado nas categorias de bruxos, feiticeiros e apóstatas. No Ocidente – sobretudo, no período medieval –, com o advento do Cristianismo, o fogo passou a ser o elo entre o mundo material e o espiritual. As Santas Inquisições eram o ato supremo para a purificação dos pagãos, dos ateus e dos bruxos. Purificação para uns e contaminação para outros.

Como já vimos acima, o fogo da vida, o fogo da civilização, também pode ser o fogo da morte, da barbárie e da perseguição. Este fogo da perseguição foi utilizado no III Reich, quando obras literárias, espaços culturais e até o parlamento alemão foram consumidos por este elemento. Este fogo da perseguição também foi utilizado pelos maometanos para queimar as preciosíssimas obras filosóficas e científicas da maior biblioteca do mundo antigo, em Alexandria, no Egito, preservando apenas o Alcorão. Em 8 de março de 1857, nos Estados Unidos da América, 130 mulheres foram queimadas vivas por reivindicarem melhores condições de trabalho, equiparação salarial e igualdade de direitos como os homens. Este mesmo fogo também é utilizado em larga escala para a “purificação social”, ou seja, como faxina social, como por exemplo, no caso de queima a mendigos, a moradores de rua, a usuários de drogas. Destaca-se especialmente, o índio Galdino queimado por jovens de classe média em Brasília, sob a alegação de que eles achavam que se tratava de um mendigo.

No Brasil, de um modo geral, sobretudo no Rio de Janeiro e em São Paulo, o fogo tem ganhado versões menos religiosas, porém não menos separatistas, não menos violentas, não menos preconceituosas e também não menos dolorosas. As armas de fogo de agentes de segurança pública e de agentes da criminalidade, os punhos e bastões dos “justiceiros” playboys das grandes capitais promovem uma grande limpeza social nas cidades, queimando, linchando e alvejando aqueles que eles consideram a escória social. O antigo filme chamado Guerra do Fogo (1981), que retrata o processo civilizatório pré-histórico por meio do fogo mostra a violência que graça entre tribos primitivas por causa desse elemento. No entanto, hoje o fogo é o elemento divisor. Ele não é o motivo da discórdia, mas sim o meio de exterminar uma forma de existência considerada inferior, para que a outra impere gloriosamente.

    Recentemente vêm crescendo o número de relatos de perseguições a religiosos indígenas e afro-brasileiros. Coincidentemente, ou não, o fogo foi utilizado como elemento de depredação destes templos. Seria utilizado pela idéia da purificação ou pela facilidade em não deixar rastros? Independente da motivação para a sua utilização é assustador constatar que num país democrático e em pleno século XXI estejamos frente a práticas e pensamentos típicos das idades média e moderna, quando os tribunais católicos ou protestantes utilizavam o fogo para a "purificação" das almas errantes...  O caso do incêndio ao terreiro de Candomblé Casa de Mãe Baiana, no Paranoá - Distrito Federal foi destaque nacional nesta última semana e destacou um tipo de ação silenciosa que vem ocorrendo no Brasil com ataques sistemáticos a templos religiosos de matriz indígena ou africana.

        A Mãe Baiana é uma figura religiosa mais humana, mais cidadã e mais eclética que eu pude conhecer. Eu pessoalmente testemunhei isso que afirmo, pois estive a frente de um evento no ano passado, no qual a Mãe Baiana deu palestras para alunos do Centro de Ensino Médio 414 de Samambaia. Em geral, os sacerdotes e as sacerdotisas das religiões de matrizes africanas no Brasil tem que realizar seus cultos em lugares muito escondidos e muito disfarçados. Os praticantes são coagidos cada vez mais a não publicizar suas crenças e não usar mais seus adereços e vestes religiosas em ambientes públicos. Isso me faz pressupor que a figura da Mãe Baiana, enquanto mulher, negra, sacerdotisa, classe baixa, grande liderança comunitária estivesse sendo muito exposta socialmente. A notoriedade da Mãe Baiana é tão conhecida que o próprio governador do Distrito Federal, visitou o espaço religioso incendiado, prestando solidariedade a sacerdotisa. Várias lideranças e instituições Brasil afora se manifestaram sobre o ocorrido.

       Tudo que se refere ao negro no Brasil sempre foi incendiado verbalmente, socialmente, politicamente, gestualmente, midiaticamente, religiosamente. A queima do templo da Mãe Baiana foi apenas a materialização da desumanidade daqueles que se julgam os mais humanizados dos homens. As nossas escolas são espaço públicos e abertos ao público diverso, no entanto, o que predomina nos espaços públicos são os valores de uma única categoria social de homens. Estamos num momento em que nesses espaços públicos você não pode se declarar petista, umbandista, praticante do Candomblé, homossexual, negro, pobre, rapper... Por diversas vezes eu assisti a calorosa recepção de religiosos cristãos nas escolas para suas orações em intervalos, em vigílias nas escolas, em convites a cultos religiosos. E vi também as mesmas escolas fechando a porta na cara de grupos de capoeira – um dos elementos afro mais inclusos socialmente –, negando-lhes apoio para suas atividades.

    Segundo o UOL notícias, em 2015 ocorreram 13 ataques contra templos religiosos dessas matrizes. Em setembro deste ano dois terreiros de Candomblé foram incendiados em Águas Lindas e Santo Antônio do Descoberto, cidades goianas do entorno do Distrito Federal. Com uma rápida pesquisa é possível constatar que esses ataques não se iniciaram em 2015, pois em julho de 2014 a mãe de santo Conceição de Lissá se reuniu com autoridades dos Poderes Legislativo e Judiciário do estado do Rio de Janeiro para denunciar os oito ataques sofridos pelo terreiro que dirige. No relatório da Assembléia Legislativa de Santa Catarina de 2013 havia uma referência de repúdio a perseguição de terreiros de Umbanda e Candomblé sob o pretexto de perturbarem a ordem pública. Dois anos depois, na cidade de Xanxerê - SC, um terreiro de Umbanda foi incendiado.

      Bartolomeu Bueno da Silva, também conhecido por Anhanguera ("Diabo Velho"), andou pelas terras do Planalto Central ameaçando as tribos indígenas com o truque do fogo na cachaça... ameaçava, ainda, incendiar os rios se os índios não revelassem os caminhos do ouro. Os indígenas foram dominados e vendidos como mercadorias, o fogo serviu como instrumento de intimidação e violência. Com isso, o famoso Anhanguera descobriu o Rio Vermelho e fundou o Arraial de Santana, que viria a se tornar a Cidade de Goiás. Por meio da intimidação o fogo lhe deu riquezas e poder, porém, segundo os relatos históricos, morreu na cidade que fundou pobre e sem quaisquer resquícios de poder.  Que os novos incendiários do Planalto Central tenham a mesma sorte.

      O Estado Islâmico é hoje o bode expiatório da barbárie humana. Convido a todos os leitores desse breve ensaio, “com o coração contrito e humilde”, inspirados pelo Espírito Santo, inebriados do axé a praticar uma análise real da alma das pessoas que te cercam. Para tanto, expurgue de você mesmo todo conceito previamente formado que tens acerca da humanidade e ouça o que estas pessoas têm a dizer. Semana passada, ao conversar com um grupo de estudantes sobre o problema antrópico em Mariana-MG, eles chegaram à conclusão de que o problema do planeta Terra é o homem. E que, portanto, a solução para a sobrevivência do mundo seria a morte do homem. Não me assombrou a falta de esperança no homem, mas a que homem o grupo se referia. Sempre alguém faz piadas com a minha barbicha e associa a minha fisionomia à estética do homem-bomba, mas a estética dos sem-barbichas escondem a podridão ética e moral do que é mais profundo num homem, o seu caráter. O caráter dos caras limpa é perverso, insano, vingativo, egoísta, machista, racista, homofóbico, xenofóbico, classicista, cujo envernizamento estético vela e legaliza o mais ardiloso dos pecados do Diabo, a vaidade.

      A vaidade do Diabo está mais presente no coração humano do que nós podemos imaginar. A vaidade está mais presente, sobretudo no coração de quem possui mais poder, porque ela é o fermento do ego, e o ego é o que divide a humanidade. Se você tem um par de chinelos mais novo do que o do seu vizinho, então a lei da vaidade imprime em seu caráter a certeza de que você tem mais direitos do que ele. Foi-se o tempo em que essa figura mitológica, o Diabo (cuja etimologia diz que a essência do seu nome é diá = dois e bolos = unidade, logo Ele é divisor), cheirava a enxofre, usava um grande tridente, e cultivava grandes chifres. Olhe a humildade e a simplicidade de um padre ou de uma freira, quão doce é. Converse com eles e perceberá que o grande tesouro de suas almas são a simplicidade e a sua humildade, de tal modo que se você ameaçar esse estado espiritual dessas figuras você as destruirá. No breve tempo de 5 anos em que fui seminarista católico eu pude perceber a presença do elemento espiritual do Diabo nos corações dos religiosos. Assim como a moralidade religiosa que se laicizou, a moralidade diabólica também se laicizou. De tal modo que percebemos como nunca na história desse país - após a secularização do Estado -, um sentimento diabolicamente-religioso tão vivo, dentro e fora das igrejas, porém com um verniz estético da cara lisa, da justiça, da fama, do sucesso, da moral.


      Em diversas religiões o Diabo é mantido cativo afim de, ser prova material da existência de Deus. Como diz Hegel, Deus só é o que é através da existência da negação Dele próprio no não-deus. Vejamos o exemplo do bizarro deputado federal e pastor, Marco Feliciano numa pregação em que ele disse que a morte de John Lennon e dos Mamonas Assassinas foi a conflagração da justiça de Deus contra a fama que esses cantores haviam adquirido. Ou seja, ninguém é maior do que Deus. Mas, o próprio Feliciano, enquanto homem de Deus está a autorizado pela vaidade a ser maior do que os artistas e dos seres humanos ao rechaçar duramente homossexuais e negros. E o Feliciano também se sente no direito de esbanjar vaidade em forma de estética facial, capilar, de vestuário e do altíssimo preço cobrado pelas suas pregações em congressos, cultos e eventos. A vaidade diabólica nunca esteve tão viva nesses corações piedosíssimos, puríssimos, justíssimos que em nome de Deus incendeiam o ódio contra seres humanos negros e seres humanos de orientações sexuais homoafetivas.

        Não teria sido então, a vaidade do Diabo, encarnada nos corações mais puros, mais crentes, mais brancos, mais heterossexuais, mais ricos, mais justos, mais cultos, mais direitistas, mais populares midiaticamente, mais viris, mais másculos que usaram o fogo natural, o espiritual, o moralístico, o capitalista, o sexual, o racial para queimar o outro ser humano? O senso de justiça e de moralidade nunca esteve tão envaidecido atualmente. Oh Mãe Baiana, na visão dos vaidosos ortodoxos brasileiros o seu autêntico esplendor religioso que Deus costuma conferir especialmente só a poucos santos não pode ser maior do que a vaidade diabólica de um evangélico ou de um católico. Porque o pavor do Feliciano, do padre, do pastor, do branco, do crente, do macho é que a sua vaidade seja ofuscada pelo excelso da sua existência divinal.














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