(LF-2015) TEXTO DE FILOSOFIA

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Martin Heidegger: o problema do fundamento.

Por Adeir Ferreira


Esse breve texto ousa quebrar algumas formas rígidas das representações fixas do desvelamento. Primeiramente porque se propõe a ser uma leve e descontraída leitura de Heidegger. Posteriormente, quer ousar driblar os percalços apresentados por Leibniz com relação à essência verdade. Sabendo por certo que da verdade não é “qualquer coisa” muito menos “uma determinada coisa”, este texto propõe uma intuição particular para inferirmos acerca do fenômeno do desvelamento.  
Nesse sentido, espera-se também que a propositura dessa empreita – por ser um caráter inferencial –, não desfira um acidente intelectual contra o pensamento heideggeriano. Como convite a essa artesanal incursão acerca do desvelamento em Heidegger, digamos a priori que a verdade parece ser apaixonada pelo andarilho de Nietzsche, que canta e dança, e não tem uma morada, e acusa os moralistas por suas duras regras ao tentar conquistá-la.
Observa-se em Leibniz – no seu estilo dialogal de escrever –, o senso descritivo e afirmativo, certamente produto da metafísica. Justamente neste ponto, Heidegger faz sua análise crítica à compreensão de Leibniz sobre o problema do fundamento da verdade por meio da desconstrução do sistema axiomático lógico e metafísico.
Heidegger revela a fragilidade monadal do sistema leibniziano ao lidar com a essência do fundamento, e nos apresenta as verdades do Ser e do ente como ponto de partida para o entendimento da verdade em geral. Heidegger questiona a essência do fundamento do princípio da razão desconstruindo os axiomas lógicos pela ótica da própria lógica. Depois ele investiga ontologicamente o caminho pelo qual a verdade leibniziana não teria um compromisso com as fundamentações do ente como causa e efeito, e sim como possíveis conexões interpretativas oriundas das conceituações fixadas no ente.


O Princípio Supremo da Razão

Ao analisar as proposições: nihil est sine ratione (nada existe sem razão), e a perífrase positiva omne ens habet ratinem (todo ente tem uma razão), Heidegger nos fala que o ente é enunciado enquanto algo como relacionado à razão. Portanto, tais proposições não esclarecem o que constitui a essência da razão. Justamente nessas nuanças Heidegger lança o característico desconstrucionismo de sua fenomenologia. Investigando o tratado de Leibniz sobre a essência da verdade, Heidegger critica o sistema conjectural e axiomático leibniziano, a fim de, expor as fragilidades desta forma metafísica ou lógica de apresentar a verdade. Parece que Heidegger não se importa muito se o principium rationis de Leibniz está atrelado à lógica, ou à metafísica, ou às duas coisas. Heidegger vê o problema da verdade e do fundamento por via da ontologia.
“Um predicado ou consequente está sempre presente num sujeito, ou antecedente; e é nisto precisamente que consiste a universal natureza da verdade” (Heigedegger, p. 17). A lógica de Leibniz para Heidegger ofusca a explicação da natureza da contingência como causa e efeito, o consequente é resultado do antecedente. Portanto, “nada existe sem razão” e “não há efeito se causa” (ibd., p. 19), logo, infere-se que “existiria uma verdade que não poderia provar-se a priori” (ibd., p. 19). Quando Heidegger diz que Leibniz concebe a verdade como verdade do enunciado (proposição), observa-se que o pressuposto deriva de conjecturas da lógica. Por isso, Heidegger diz que a verdade para Leibniz é a consonância, ou seja, concordância com o que se manifesta na identidade como unido. Portanto, no âmago da verdade “habita uma relação essencial à algo de semelhante com o fundamento” (ibd., p. 21).
O ente não pode ser meramente consequência de um precedente, pois, ele seria inacessível para as demais interpretações fora do seu precedente. A pré-dicação não revela o ente, antes o direciona a uma única via de representação mais ampla. A explicação de Heidegger para essa grande virada se exprime por meio do desvelamento: “só o desvelamento do ser possibilita a revelabilidade do ente” (ibd., p. 25).
O desvelamento é a verdade ontológica. Ele é um acontecimento, e não um sistema de revelação da verdade. A verdade ontológica interpela o ente, não quer dizer que apreende o ente. Apreender seria o mesmo que tentar codificar, decifrar e deter o ente. No entanto, as interpelações do ente são formas de se comportar do Ser, e não um mecanismo lógico, programado, imposto e exigido como condição de existir do desvelamento. A compreensão do ser não é a apreensão do ente e nem de si mesmo, é a compreensão “pré-ontológica” que “se desenvolveu por si mesma e transformou expressamente em tema e problema o ser nela compreendido, em geral projectado e de algum modo desvelado” (ibd., 25).
            Para Leibniz, a verdade seria autoreveladora. O problema é que essa revelação não se trata da apresentação do sustentáculo da verdade, e sim de si mesma no palco das aparências. Sua consonância revela uma comunhão metafísica e lógica das proposições à medida que não sustenta contradições. Ao ser questionada sobre suas afirmações a verdade sustentaria sua veracidade no testemunho de sua coerência interna. No caso da ciência, talvez consista nesse fator a leitura de Heidegger à maneira não-introdutória de agir, ou seja, sempre autoreveladora, enquanto que a filosofia seria introdutória.
            “Entre a compreensão pré-ontológica do ser e a problemática explícita da conceptualização do ser, há múltiplos estádios” (ibd., p. 25). Portanto, a verdade não seria capaz de sustentar a si própria por meio de proposições lógicas, pois, um conceito não tem como precedente apenas o conceito fixado aprioristicamente. Ou seja, o que se entende por efeito não é necessariamente uma consequência de sua causa, e sim uma das múltiplas manifestações das representações pré-conceituais do ser que não tem a intenção direta de provocar tal efeito.


A verdade em si mesma não existe sem que haja cúmplices

            Talvez a leitura religiosa seja um excelente foco de análise nos tratados sobre a verdade e sobre a essência da verdade. A passagem bíblica tem o seu sentido e significado em um contexto religioso, porque as conexões necessárias ao entendimento do que significa, como por exemplo, Jesus à Tomé depende de uma história prévia. No entanto não exclui o leigo do entendimento do diálogo, talvez até lhe facilite a construção de uma crítica pelo fato dele não ter que se submeter à sacralidade religiosa.
            A sacralidade, a autoridade, as afirmativas, as teses científicas tais como os axiomas lógicos são e estão imbricados de um dossel que se confunde com verdade. Apresentam-se sempre fechados, sempre certos, claros, coerentes e concretos. Um lógico, um devoto, um subalterno quase sempre não questiona os fundamentos de tais aparências, pois se contenta com seu esplendor, sua perspicácia, sua eloquência, ou até mesmo justifica que suas perguntas podem ter sido feitas reclamando um fundamento da verdade, mas que a resposta ainda não fora encontrada, ou talvez não seja necessária, porque o que importa é o resultado.
            Graças aos recursos linguísticos o “talvez” me permite o devaneio discursivo sem ser repreendido a priori, por isso “talvez” o problema do fundamento sobre a verdade esteja correlacionado com questões da existencialidade humana. Sem ser apelativo com o senso comum, ou tagarelar sobre aspectos não filosóficos faço de longe referência às orientações psicanalíticas para insinuar que a verdade parece se impor mais fortemente pelo poder do convencimento e da coerência lógica de suas proposições do que pela essência ontológica do seu fundamento.
            É comum no cotidiano vermos crianças que defendem suas teses à partir de fontes que lhe são seguras, ou nesse caso, testemunhal, real, tais como o seu pai, sua mãe ou alguém que ele reconhece como autoridade, tutor, educador. Na fase madura veneramos pensadores, obras, hábitos que correspondem com nossas crenças na autoridade – consciente ou inconscientemente submissas e veneradas –.
O fato de a fonte da verdade ser segura oferece comodidade, respeito, afabilidade, impedindo dessa forma o diálogo. Heidegger será, portanto, o filósofo da desconstrução das garantias sobre o fundamento da verdade solidificada no confortável e antigo dorso da história ocidental, que acomodou desde Platão a Hegel, na metafísica e na lógica, um sacro fundamento da Verdade Absoluta.
Para finalizar a exposição dos cúmplices seria interessante fazer um adendo à Schopenhauer no tratado A Arte de Ter Razão (2001). Nesta pequena obra Schopenhauer oferece 38 estratagemas como formas de obter razão por meio de técnicas retóricas do discurso. Numa exposição retórica o que importa é obter vantagem sobre o oponente na busca da verdade. A verdade em si mesma é secundária, e até mesmo desnecessária. Para Schopenhauer, se o locutor conseguir vencer retoricamente o oponente, sua vitória soará aos ouvintes como verdade, e o próprio fato de ser eloquente e perspicaz servirá como fundamento da verdade.
Longe de fazer um juízo equivocado, até pelo fato de ser ainda cedo, podemos inferir que Leibniz aponta para uma “verdade em si mesma”, que contém em si própria seus fundamentos, por isso ela confere às suas consequências e efeitos o seu veredicto. Finalizemos este primeiro momento parafraseando. A dita “verdade em si mesma” é esse objeto opaco. E para que seja ainda mais impenetrável, sua opacidade é oferecida como fundamento e essência de credibilidade aos seus maleáveis servos. Os senhores que endurecem as entranhas da verdade com seus chicotes retóricos e funcionalistas são cúmplices que nos escraviza e nos lança num engodo ideológico.

Uma amostra religiosa da concepção de “verdade em si mesma”

“Na casa de meu Pai há muitas moradas. (...) onde eu estou, também vós estejais. E vós conheceis o caminho para ir aonde vou. Disse-lhe Tomé: Senhor, não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o caminho? Jesus lhe respondeu: Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. (João 14, 2 – 6).

Cristo, ao dizer aos discípulos que lhes iria preparar uma morada celestial estava imbricado de conceitos metafísicos. Este é o primeiro motivo para que Tomé não compreendesse onde era essa residência, pois a discussão havia originado no pressentimento que Jesus teve de sua morte – ao descobrir o seu traidor –, sem que os discípulos soubessem. A falha na comunicação trouxe um ar aforismático que acabou por ofuscar ainda mais o entendimento dos discípulos sobre quem era o Cristo, a que morada ele se referia e, o que seria a verdade, ofusca, sobretudo, o fundamento da verdade.
A afirmativa “eu sou o caminho, a verdade e a vida”, podemos interpretá-la da seguinte maneira: “eu sou o caminho para vocês que conduz a mim mesmo, que sou a verdade, na qual todos vocês irão viver”, ou, “eu sou a causa e o efeito”, ou, “eu sou o produto e o produtor”, o diálogo se fecha. No entanto não esclarece o fundamento das afirmativas. Logicamente faríamos um esforço exegético ou teológico desnecessário para decifrar a passagem bíblica. O intuito é mostrar como a definição de verdade se fechou em si mesma. Os questionamentos cessam, as consonâncias da verdade são produzidas pela submissão à sacralidade profética e à sabedoria retórica na expressão da metáfora.
Os dialogantes do senso comum não ousam ir além das amostras dos efeitos, o máximo onde conseguem chegar é na causa, e ela mesma dá o veredicto final sobre a essência do fundamento inexistente ou infundado. Tomé é um discípulo mal visto no âmbito religioso, porque ele questiona demais. Seu hábito de perguntar é entendido pelos cristãos como falta de fé, quesito fundamental para vida cristã. Chega num certo ponto em que seu mestre Jesus lhe concede provas mais concretas porque Tomé poderia exigir provas ontológicas sobre a verdade firmada.
Nessa perspectiva Heidegger diz que a verdade para Leibniz é a verdade do enunciado (proposição). Ou seja, verdade fechada em si mesma, coerente consigo mesma e que impõe às coisas (discípulos) o seu veredicto. Quando questionada sobre sua identidade firma-se sobre si como sendo ela mesma o fundamento. Para levantar um grande questionamento acerca do fundamento Heidegger pergunta sobre o fundamento da causa e sobre o fundamento do efeito. Chegando aos fragmentos horizontalizados das várias manifestações, fruto das interpelações do Ser. Heidegger reconstrói a tão conhecida verdade como uma representação dessacralizada (profanizada), ou seja, que não foi intencional, planejada, apenas escolhida como conexão interesseira da apresentação.


Referências Bibliográficas:

Bíblia Sagrada. 26 ed. Ave-Maria: São Paulo, 2000.
HEIDEGGER, Martin. A Essência do Fundamento. Edição Bilingue. Edições 70: Lisboa, S/A. (Obs. sem o ano de publicação).
LEIBNIZ, Gottfried Wilhelm. Novos Ensaios Sobre o Entendimento Humano. Tradução de Luiz João Baraúna. São Paulo: Nova Cultural, 2004.
SCHOPENHAUER, Arthur. A Arte de Ter Razão. Tradução de Franco Volpi. São Paulo: Martins Fontes, 2001.


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